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20.07.2009


''Faço política de outro jeito''


De: Paulo Venceslau / Caderno 2 / Sonia Racy / Jornal Estado de S. Paulo


Nenhuma carreira dura tão pouco quanto a de um atleta profissional. No caso do futebol, são raros os jogadores que sabem disso e planejam o futuro. Raí Souza Vieira de Oliveira estreou nos gramados ainda menino, aos 15 anos, no Botafogo de Ribeirão Preto. E saiu dessa vida em 2000, no auge, quando era ídolo do São Paulo.


Nove anos depois, tanto sua popularidade quanto a barriga tanquinho continuam as mesmas. O ex - ídolo da Seleção Brasileira e do São Paulo fugiu do clichê: em vez de se tornar técnico, vereador, comentarista ou viver de renda, passou a desfraldar bandeiras em série. Além de fundador da ONG "Gol de Letra", preside outra, a"Atletas pela Cidadania". 

Sua meta atual é convencer autoridades do porte de Lula e José Serra, com quem esteve semana passada, a cumprir a "Lei do Aprendiz". Ela estabelece que todas as empresas de médio e grande porte estão obrigadas a admitir jovens entre 14 e 24 anos com um contrato especial de trabalho por tempo determinado de, no máximo, dois anos. E que eles façam, nesse ínterim, algum curso de meio período. Nessa entrevista à coluna, Raí fala sobre militância - não só a dele como a do irmão, Sócrates -, relembra os tempos de atleta e opina sobre os erros do Brasil na Copa de 2006 que "não podem ser repetidos" em 2010. 

A ONG que você preside, "Atletas pela Cidadania", reúne várias celebridades como Dunga, Ricardo Gomes, Rogério Ceni. Como foi juntar essa turma toda e de que modo eles ajudam? A gente começou em um grupo menor, que foi crescendo. A filosofia do trabalho é usar o poder de mobilização e de comunicação, a credibilidade de cada um. Alguns têm condições de serem mais ativos, outros não podem. Mas a ideia é que cada vez mais existam formas alternativas de participação. 

O governo se comprometeu a cumprir a meta do projeto "Aprendiz", de empregar 800 mil jovens até 2010. Mas até agora só 145 mil estão empregados e recebendo os benefícios... Já foi uma vitória conseguir que o governo se comprometa com isso. Estamos fazendo eventos regionais, formando comissões, fazendo fóruns estaduais e mobilizando empresas. A meta não é tão impossível assim. É uma questão de honrar o compromisso e investir. Nós vamos continuar no nosso papel de motivar, incentivar e cobrar também. Mesmo com a crise.


Vocês estão satisfeitos com o ritmo do ministro Carlos Luppi nessa questão? Ele deu abertura. O secretário-executivo também. Eles se sensibilizaram e montaram uma equipe interna para que isso se torne prioridade. Mas o papel da sociedade civil é cobrar cada vez mais. Estamos indo lá conversar, sempre.


Seu irmão, Sócrates, influenciou-o politicamente? Tivemos uma influência forte do meu pai, que era funcionário público e gostava muito de política. Mas o Sócrates sempre foi uma referência devido às suas fortes convicções ideológicas. Ele teve, sim, uma influência forte sobre mim. Logo que cheguei ao São Paulo, na primeira entrevista coletiva, todo mundo perguntava o que eu achava das eleições, dos partidos, da esquerda, do centro... Percebi, então, que por ser irmão dele eu teria que ler todo dia os cadernos de política e economia dos jornais (risos). 


Você já pensou em se candidatar a alguma coisa? Faço política de outro jeito, através das instituições de que participo. Me dou por satisfeito assim. A força de uma ação dessas está justamente na independência política, no apartidarismo. Porque independe de grupos. Não ter ligação formal com partidos dá mais força. 


Prefere Serra ou Dilma? (risos).Como lhe disse, nossa ação é apartidária. Como cidadão estou querendo acreditar mais em programas e projetos do que em políticos e candidatos. Com a democracia, o projeto passou a ser mais importante que a pessoa.


Os atletas são tão engajados como os artistas, que vivem em Brasília defendendo a Lei a Rouanet?Existe aí uma questão prática. O esportista tem uma carreira muito curta, de 15 ou 20 anos no máximo. Não dá tempo de se dedicar a uma associação de classe. Já o artista passa a vida inteira naquele universo. O atleta em atividade não tem muito tempo para nada fora do esporte. Eu comecei a me dedicar quando parei, em 2000. Mesmo assim, hoje em dia mais jogadores estão interessados em militância. 


É difícil decidir a hora de parar? A gente tenta se preparar, mas é difícil... Chega um momento em que não dá mais para acompanhar o ritmo. Saber a hora de parar é um grande desafio. 


Pensar no futuro também... Claro. A maioria ou continua como treinador, ou começa em uma atividade nova, sem experiência. 


O Leonardo, técnico do Milan, teve que fazer um curso antes de assumir como técnico. Dunga e Maradona, não. O que acha disso? Curso sempre agrega. Na Europa é obrigatório, mas atletas de alto nível, que jogaram Copa do Mundo, não começamdo básico. Todo tipo de formação é benvinda. E o Brasil carece dessa formação esportiva em todas as áreas. O Leonardo chegou a me falar que é difícil voltar para a sala de aula, mas que ele aprendeu coisas importantes. 


Pensou em ser técnico? Na prática, nunca. Mas já tive vontade de comandar um grupo, já que sempre fui capitão. O ritmo de vida de treinador não me agrada. Tem que mudar muito, é tudo muito instável. Não escolhem para onde vão. Fica à deriva, dependente do mercado. 


Como evitar que o Brasil repita em 2010 o fiasco de 2006? A experiência de 2006 vai servir como lição. Dunga está fazendo uma mescla de jogadores consagrados e outros iniciantes, é um bom caminho. Se fossem escalados só os consagrados seria perigoso. Acho ótimo que Ramires, Nilmar e André Santos sejam testados. É parte da lição.


É mais fácil jogar na Europa ou aqui, no Brasil? Na minha época era mais difícil jogar aqui, mas isso melhorou. Cheguei a jogar três, quatro vezes por semana. 


O jogador de futebol é perseguido pela torcida? Dá para tomar uma cerveja em paz? Eu não tinha muito esse problema. Saía depois dos jogos, mas ia para lugares reservados. E bebia cerveja com amigos. Mas era casado. Para o solteiro é mais complicado, porque eles acabam indo para onde tem gente solteira e ficam mais expostos. Mas a cobrança é natural. Tem que tomar cuidado mesmo. 



Direto da fonte

Sonia Racy



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